terça-feira, 21 de agosto de 2018

GUEIXA (1)


Muito se fala e se discute, principalmente no ocidente, sobre a figura e o papel da gueixa na sociedade japonesa. Na prática, poucos ocidentais, e mesmo japoneses, têm efetivamente contato com uma gueixa. Em público, elas só aparecem em poucas ocasiões, como no Jidai Matsuri (Festival das Eras), e na temporada de danças tradicionais Kamogawa Odori (Danças do Rio Kamo) que ocorrem em outubro, em Kyoto. Fora tais ocasiões, poucos turistas conseguem vê-las andando pelas ruas, nas raras ocasiões em que saem para ter aulas de dança, shamisen (cítara de três cordas tradicional) ou ikebana (arranjo floral), ou a caminho de um restaurante para entreter algum empresário ansioso em impressionar os seus convidados. Ser servido ou entretido por uma gueixa, mesmo entre os japoneses, é privilégio de poucos.



O fascínio pelo assunto no ocidente começou através de artigos de jornais e da arte, do teatro e da literatura a partir da segunda metade do século XIX, quando o Japão passou a abrir os seus portos às potências ocidentais, terminando um isolamento comercial e cultural que durou mais de 200 anos. As gravuras ukiyo-e (retratos do mundo flutante) tornaram-se bastante populares e apreciadas na Europa, em especial por artistas plásticos franceses.  Vendidas em folhas avulsas ou até encadernadas na forma de um livro, tais gravuras frequentemente retratavam gueixas, havendo até artistas que se especializaram em desenhá-las, como Kiyonaga e Utamaro, formando um “estilo” dentro do ukiyo-e, chamado de bijin-ga (desenho de mulher bela). Relatos de viajantes e correspondentes publicados em jornais de um Japão tão diferente e exótico eram lidos com grande curiosidade.


Em 1904, o compositor italiano Giacomo Puccini criou a ópera “Madame Butterfly”. Inspirada num caso verídico, a ópera conta a trágica história de uma gueixa, Cho-cho (“borboleta” em japonês), que se apaixona por Pinkerton, oficial americano em missão no Japão. Acreditando ser esposa de Pinkerton, ela tem um filho mestiço e passa a sofrer o preconceito dos japoneses. Ele é chamado de volta aos Estados Unidos, e acreditando nos democráticos valores com que o seu amado descrevia o ocidente, Cho-cho aguarda o seu regresso ao Japão na esperança de ir viver com ele e com o filho na América. Mas Pinkerton volta casado com uma americana e deixa Cho-cho, que acaba por se matar. Até hoje extremamente popular, “Madame Butterfly” não apenas tornou Cho-cho a gueixa ficcional mais famosa do mundo, como também serviu de inspiração para filmes e outra peça de sucesso 80 anos depois: o musical “Miss Saigon”, de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg.
 


A ficção e as diferenças culturais fizeram com que a idéia que o ocidente tem das gueixas seja distorcida, pouco correspondendo com a realidade. Muitos, principalmente os incultos, acham que uma gueixa nada mais é do que uma exótica prostituta de luxo – algo que choca os japoneses, que as consideram refinadas guardiãs das artes tradicionais. Para os japoneses, achar ou tratar uma gueixa como se ela fosse uma mera prostituta é uma atitude que revela não só falta de critério, mas de cultura de quem assim age. Na sociedade japonesa, a gueixa é objeto de admiração e respeito. Elas dão status aos lugares que vão e às pessoas com quem se relacionam , um status que é mais ligado à tradição que à moda.

Entender o que é, ou o que faz uma gueixa ser uma gueixa, é difícil para os que pouco conhecem o Japão, a história, a cultura e a sociedade do país. A existência da gueixa só pode ser compreendida no contexto japonês, assim como ela é produto do que o Japão foi e é.
O surgimento da gueixa tem muito a ver com a maneira pela qual a sociedade japonesa foi organizada durante o governo dos xóguns da família Tokugawa, também conhecido como a Era Edo (1603 – 1867). No século XVII, nas primeiras décadas do estabelecimento do xogunato, crescentes medidas de controle da vida civil foram tomadas objetivando não só estabilidade interna, mas a manutenção do clã Tokugawa no poder, o que deu à sociedade como um todo uma forma feudal, rígida e hierarquizada, de pouca mobilidade de uma classe a outra e fechada em si mesma. Influências externas, como o cristianismo, eram vistas como negativas e subversivas, de tal modo que em 1637 um édito do xogunato ordenou a proibição do comércio e da vinda de navios europeus (exceptuando os holandeses da Companhia das Índias, que eram tolerados por não misturar religião ao comércio, e que ficavam isolados em uma ilha perto de Nagasaki) e a expulsão dos estrangeiros, impondo um isolamento do Japão que se estenderia por dois séculos.

O controle do governo sobre a sociedade civil atingiu em especial as mulheres. Excetuando os papéis de mãe, esposa e dona de casa, não havia uma profissão que uma mulher pudesse exercer, que não fosse na condição de auxiliar do seu marido na agricultura, ou num comércio dirigido pelo esposo – trabalhos que eram considerados “obrigação” da mulher e que, por isso, não recebia uma remuneração específica. A falta de opções de profissões para as mulheres foi agravada em 1629, quando por lei o xógun tornou o teatro uma atividade proibida às mulheres. Impedidas de praticar atividades de entretenimento em público, os palcos foram rapidamente ocupados por homens travestidos, para substituir a presença feminina em cena. Não tendo um marido ou uma família que a sustentasse, restava à mulher apenas a prostituição como meio de subsistência.


A palavra geisha significa literalmente “pessoa da arte, artista”, e ela foi originalmente usada para designar comediantes e músicos que se apresentavam em banquetes e festas particulares no século XVII. Assim, as primeiras gueixas não foram mulheres, mas homens. Os otoko-geisha (artistas masculinos) eram especializados em entreter pequenas platéias em festas, dançando, cantando contando histórias e piadas. Como os palcos estavam proibidos às mulheres, as festas privadas tornaram-se os únicos lugares onde as mulheres podiam tocar música, dançar e cantar, e assim surgiram as onna-geisha (artistas femininas).

 Entretanto, aquela era uma época em que a atividade artística e prostituição se confundiam. Donos de pousadas e de casas de chá ofereciam as suas funcionárias, que de dia serviam ás mesas e limpavam o estabelecimento,  como prostitutas à noite, ao que se dava o sutil nome de “serviço de travesseiro”. Nem sempre se tratava de prostituição voluntária – patrões sem escrúpulos diziam às empregadas “agrade o cliente ou é despedida”. Originalmente o teatro kabuki era predominantemente feminino, porém muitas dançarinas de kabuki prostituíam-se e escândalos de samurais envolvidos com elas na capital foram a causa da proibição em 1629. Assim, a clientela dos banquetes não esperava menos das mulheres artistas. Embora durante muito tempo a atividade de gueixa confundiu-se com prostituição, a partir do século XVIII medidas que oficializaram e regulamentaram a prostituição acabaram distinguindo as prostitutas das gueixas.




Atualmente ser uma gueixa é mais do que uma mera profissão. É um estilo de vida que exige total e absoluta dedicação. É aceitar acima de tudo que será uma vida de servidão, que eventualmente terá grandes recompensas. Como tudo no Japão, ser gueixa é também um dom, um caminho a ser percorrido pelo resto da vida. Karyukai, “o mundo da flor e do salgueiro”, é o nome que se dá ao mundo das gueixas. Cada gueixa é como uma flor e um salgueiro: bela em seu próprio modo de ser como uma flor; graciosa, flexível mas forte como um salgueiro.



sábado, 11 de agosto de 2018

JOGOS OLÍMPICOS 2020 – TÓQUIO


Confirmou-se uma excelente notícia que há muito os amantes e praticantes de karate esperavam: a modalidade faz parte de um lote de cinco que vão integrar os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.
 O karate alcança agora o prestígio de uma modalidade olímpica com tudo o que isso acrescenta á modalidade, desde os apoios económicos até à própria motivação dos karatecas, que podem agora acrescentar mais um objetivo competitivo ao seu plano de trabalho.


Tóquio 2020 vai também contar com modalidades como escalada, skateboard (street e park), surf e basebol (masculino)/softbol (feminino). Yoshiro Mori, presidente dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, destacou que “a inclusão destas novas modalidades irá permitir a jovens atletas a oportunidade de uma vida, concretizando o sonho de competir nos Jogos Olímpicos, o maior palco desportivo do mundo”.

Esta é uma ideia reforçada pelo presidente do Comité Olímpico Intenacional (COI), Thomas Bach, que acredita que estas cinco novas modalidades são uma “combinação inovadora de modalidades bem estabelecidas e emergentes, voltadas para a juventude.”
Esta foi uma decisão tomada por unanimidade pelo COI num congresso que decorreu em Agosto passado, no Rio de Janeiro. Na ordem de trabalhos estavam ainda modalidades como o bowling, o squash ou o wushu, mas estas ficaram de fora.
As próximas olimpíadas de 2020 , terão assim mais dezoito eventos desportivos, estando oito medalhas de karate em jogo.




domingo, 5 de agosto de 2018

MIKIMOTO - REI DAS PEROLAS



Conhecido como “Rei das Pérolas”, Kokicho Mikimoto nasceu na cidade de Toba, atual província de Mie. A família possuía um pequeno negócio de udon (esparguete com caldo japonês)  sendo o filho mais velho,  estava destinado a continuar com a atividade dos seus antepassados. Foi apenas na casa dos 30 anos, já casado e com filhos, que Mikimoto se interessou por pérolas , mais especificamente pelas experiencias para a criação de pérolas cultivadas. Contemporâneos de Mikimoto, o biólogo Tokichi Nishikawa e o carpinteiro Tatsuhei Mise descobriram, um independente do outro, a base da cultura de pérolas, que era a inserção cirúrgica de um núcleo de metal dentro de uma ostra, para que ela forme uma pérola com a lenta liberação de uma secreção que cobrirá o núcleo. Nessa época (final do século XIX), embora se conhecesse a base do processo que forma a pérola dentro de uma ostra, não havia um processo que efetivamente permitisse o cultivo de pérolas de qualidade em quantidade.

Determinado a criar o processo de cultivo propriamente dito, Mikimoto fez experiencias durante anos, para encontrar desde o material mais adequado para o núcleo até o local mais adequado para as ostras ficarem no mar. Na base da tentativa e erro, ele usou de tudo: areia, barro, madeira, vidro e metais como núcleos. Perdeu anos de trabalho com a praga da maré vermelha, uma doença que mata ostras aos milhões. Endividado, Mikimoto chegou a ter de ir trabalhar em Hokkaido para ter dinheiro.
Tanta obstinação gerou frutos. Mikimoto acabou obtendo os melhores resultados com ostras enxertadas com núcleos feitos de conchas de mariscos americanos, e na costa de Toba encontrou o melhor local para o longo repouso das ostras, que precisam estar vivas para produzir pérolas. A primeira “colheita” de Mikimoto foi de cinco pérolas de boa qualidade para 800 mil ostras enxertadas, ainda assim uma média mais alta que a natural, de uma pérola para cada milhão de ostras.


Mikimoto abriu a sua empresa em 1893. Além de aperfeiçoar o cultivo de pérolas, ele investiu no ramo joalheiro, enviando funcionários à Europa para aprenderem a confecção e design de jóias. Em 1907, Mikimoto abriu a sua primeira joalheria em Tokyo, e em 1911, a primeira filial no exterior, em Londres. Hábil homem de marketing, Mikimoto promoveu as pérolas japonesas no exterior expondo grandes estruturas, como a réplica do Sino da Liberdade dos Estados Unidos, e representando personalidades com as suas criações, como o inventor Thomas Edson. Mikimoto cunhou a frase “meu sonho é colocar um colar de pérolas no pescoço de cada mulher deste mundo”.

Antes da Segunda Guerra, Mikimoto possuía filiais em Londres, Nova York, Los Angeles, Xangai, Bombaim e Paris. Com a Guerra, foi obrigado a fechar as filiais e nos duros tempos de reconstrução, mesmo com idade avançada,  voltou a enxertar e cuidar das ostras com as suas próprias mãos. Em 1954, Mikimoto faleceu aos 96 anos, tendo reerguido a indústria das pérolas que ele mesmo criou. A esposa, Ume Mikimoto, sua principal colaboradora e mãe dos seus cinco filhos, faleceu antes de ver o sucesso do marido. Além de trabalhar, cuidar da casa e da família, Ume participou ativamente do longo e complexo cultivo de ostras, fato este que Mikimoto fez questão de lembrar divulgar durante toda a sua vida.

Mikimoto é um divisor de águas no que se refere a pérolas. Com ele, criou-se efetivamente a pérola cultivada, o que tornou uma jóia rara acessível no mundo inteiro, embora as pérolas continuem a ser caras e belas. Atualmente, todas as jóias adornadas com pérolas são do tipo cultivado e embora haja hoje pérolas cultivadas de outras partes do mundo, Mikimoto tornou a pérola um sinonimo de Japão.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A ESPADA JAPONESA DAS SETE RAMIFICAÇÕES – Espada mística


O Santuário Isonokami é um santuário xintoísta que se acredita ter sido construído no ano 4 DC. Localizado no sopé de Tenri na provincia de Nara, no Japão, este santuário é culturalmente significativo, pois abriga vários tesouros nacionais.  Neles está incluida uma espada lendária que é uma das Reliquias Imperiais do Japão.  Entre esses tesouros inestimáveis, há uma espada curiosa conhecida como Nanatsusaya no Tachi , ou "Espada de Sete Ramificações".
A Espada de Sete Ramificações chama-se assim devido às três protuberâncias em forma de ramo que se estendem de cada lado do corpo principal da espada. Juntamente com a ponta da lâmina central, formam sete 'ramos'. Esta espada mede 74,9 cm de comprimento e é feita de ferro. Como os "ramos" parecem ser bastante delicados, e sua funcionalidade no combate corpo a corpo é duvidosa,  sendo improvável que a Espada de Sete Ramificações tenha sido usada como arma militar. Em vez disso, provavelmente teve uma função cerimonial. Isto pode ser apoiado pela inscrição, que é incrustada com ouro, na lâmina central.
Uma tradução da inscrição é a seguinte:
Primeiro Lado: “No dia 16 de maio, o 4º ano do Tae-hwa [ou no dia 16 de abril, o 4º ano do T'ai-ho], o dia de Byeong-O ao meio-dia, esta espada de sete braços foi fabricada com cem vezes de ferro forjado. Como esta espada tem um poder mágico para derrotar o inimigo, ela é enviada [concedida] ao rei de um estado vassalo . Fabricado por xxxx.
Segundo Lado: “Nunca houve tal espada. Pensando na longevidade, o rei de Baekje (ou o príncipe herdeiro de Baekje que deve sua vida ao rei Augusto) mandou fazer esta espada para o rei de Wa [ou o rei do estado vassalo]. Espero que seja transmitido e mostrado para a posteridade ( 傳示後世 ) ”.


A espada de sete ramos

A inscrição mostra que a Espada de Sete Ramificações foi dada pelo rei / príncipe herdeiro de Baekje (um antigo reino na parte sudoeste da Península da Coreia) ao rei de Wa (governante do Japão). Esta inscrição indica que houve contato entre Baekje e o Japão nos tempos antigos. Isso não é novidade, talvez, dado que há um consenso geral de que os enviados e estudiosos de Baekje trouxeram o budismo, o confucionismo e o sistema de escrita chinêsa através do mar para o Japão. Mais importante ainda, a inscrição na Espada de Sete Ramificações pode lançar alguma luz sobre a natureza da relação entre Baekje e o Japão. 


Diadema de ouro com detalhes intrincados do reino de Baekje

Certas ambiguidades da inscrição causaram muitas teorias sobre a natureza da relação de Baekje com o Japão. De acordo com alguns estudiosos (principalmente japoneses), a Espada de Sete Ramificações foi dada pelo governante de Baekje ao governante do Japão como um tributo. De acordo com essa interpretação, Baekje era um estado vassalo do Japão.
Por exemplo, a palavra “候王” é considerada como honorífica. Outros (principalmente estudiosos coreanos), no entanto, afirmam que este termo deve ser traduzido como “rei de um estado vassalo” ou “senhor declarado”, portanto, invertendo o relacionamento. Outra diferença na interpretação da inscrição pode ser encontrada no tom. Por exemplo, alguns leram a última frase no segundo lado da espada, “傳示後世”, como um comando dado por um mestre ao seu vassalo. Outros, no entanto, não detectam tal tom na inscrição.


Fontes externas também foram usadas para dar suporte a cada solicitação. Por exemplo, os proponentes da idéia de que o Japão era o soberano de Baekje podem citar o NihonShoki para apoiar ainda mais a sua afirmação. De acordo com o NihonShoki , o segundo livro mais antigo da história clássica japonesa, uma espada de sete braços, juntamente com outros tesouros valiosos, foi apresentada pelos Baekje ao Japão durante o 52º ano do reinado da Imperatriz Jingu. Depois disso, o Baekje enviou uma homenagem anual ao Japão. Aqueles que se opõem a esta alegação podem apontar que a construção do grande reservatório de Byokgolje durante o século IX dC como um exemplo do poder de Baekje durante esse período. Este foi um trabalho público maciço, e a organização e mobilização do trabalho eram evidentes do poder de Baekje. Por outro lado, não há evidências de que o Japão tenha avançado durante o mesmo período. Em outras palavras, os Baekje eram superiores ao Japão, e o último era um vassalo dos primeiros.

Uma terceira interpretação da inscrição na Espada de Sete Ramificações sugere que havia uma relação igual e respeitosa entre Baekje e o Japão. Dada a ambiguidade da inscrição, essa interpretação também é inteiramente plausível. É provável que o debate continue e permaneça inconclusivo até que mais evidências sejam encontradas. Até lá, a inscrição na Espada de Sete Ramificações continuará a ser interpretada pelos estudiosos do ponto de vista moderno.


terça-feira, 17 de julho de 2018

BUNRAKU -TEATROS FANTOCHES JAPONESES

Um 'musume' ou fantoche de donzela sendo operado pelo omozukai e seus dois assistentes
O Bunraku, ou teatro de fantoches japonês, é provavelmente a forma mais desenvolvida de teatro de marionetes do mundo. É diferente das marionetas do ocidente, pois não há cordas e, nos seus primórdios, os marionetistas estavam escondidos atrás de uma cortina. Os fantoches são grandes - geralmente cerca de metade do tamanho real de um humano - e os personagens principais são operados por três marionetistas. Muitas peças de bunraku são históricas e lidam com temas japoneses comuns, onde predomina sempre o conflito entre obrigações sociais e emoções humanas. As maiores obras do mais famoso dramaturgo do Japão Chikamatsu Monzaemon(1653-1724) são peças de bunraku, muitas das quais escritas em torno desse tipo de conflito.

Um fantoche 'bunshichi' ou guerreiro.
Bunraku é, na verdade, o nome usado para ningyojoruri -ningyo, que significa marionete e joruri, sendo uma espécie de narração cantada. Acredita-se que as peças de fantoches tenham as suas origens no século X ou XI. Animadores itinerantes, muitos da Ilha Awaji, no Mar Interior de Seto, apresentaram peças nas cidades vizinhas de Osaka e Kyoto.


Bunraku como a conhecemos hoje, combinando teatro de marionetes, joruri e acompanhamento musical fornecido pelo shamisen de três cordas, começou no Periodo Edo (1600-1868) em Osaka. Como o Kabuki anterior, no ano 1600, o bunraku tornou-se o equivalente do homem comum, que apenas a aristocracia podia estudar. Floresceu a partir do final do século XVII, graças particularmente à colaboração popular do cantor Takemoto Gidayu com Chikamatsu. O Suicídio de Amor de Chikamatsu em Sonezaki (1703, SonezakiShinju) é equivalente ao tema de Romeu e Julieta de Shakespeare. A peça, baseava-se num recente suicídio amoroso, foi tão popular que causou um aumento desse tipo de suicídio - por esse motivo o governo proibiu a representação. O conceito de basear uma peça num evento recente foi revolucionário e realmente atraiu a imaginação do público. A mais famosa peça de bunraku é provavelmente Chushingura: O Tesouro de Leal Retainers (Kanadehon Chushingura), uma história de heroísmo, lealdade e vingança, que também foi transformada numa famosa peça de kabuki, filmada muitas vezes.

A variedade de cabeças de fantoches que são usadas para diferentes personagens.
O omozukai , ou principal manipulador de marionetes, manipula a cabeça e as características com o braço direito, enquanto os dois outros manipuladores de marionetes (assistentes), operam o braço esquerdo (hidari-zukai) e as pernas (ashi-zukai). Os assistentes normalmente tem uma aprendizagem de 10 anos, antes de se tornarem um omozukai. O omozukai é visível para o público - afinal de contas, ele é a estrela do show - veste-se com fatos coloridos, enquanto os outros operadores são "invisíveis" - na verdade, eles estão apenas envoltos em vestes negras e capuzes. Fantoches de personagens femininas geralmente não têm pernas, já que estão vestidos com Kimono de corpo inteiro.


Desde o Periodo Meiji (1868-1912), quando a cultura ocidental se tornou cada vez mais popular, o bunraku tem estado em declínio e depende do patrocínio do governo e da receita do Teatro Nacional de Tóquio e do Teatro Nacional Bunraku em Osaka. Quando o National Theatre foi inaugurado em 1966, foi a primeira casa permanente que o bunraku teve em quase 150 anos. Embora haja aumentos ocasionais de popularidade, o verdadeiro problema está no fato de que os artesãos que criam as marionetes e os figurinos estão a morrer e a longa aprendizagem necessária para ocupar o lugar deles não atrai a geração jovem de hoje.


domingo, 15 de julho de 2018

KARATE PARA TODOS


Quem pratica Karate só tem vantagens. A filosofia desta arte marcial é voltada para o desenvolvimento pessoal e para uma vida saudável. Não é sobre violência, mas sobre como encontrar equilíbrio. E o melhor de tudo, o Karate é recomendado para todas as pessoas, de adultos a crianças, homens e mulheres.

 Conheça alguns dos benefícios do Karate: 


1- É um exercício que trabalha todo o corpo, ajuda a perder peso e aumenta a resistência
O Karate é uma atividade aeróbica, que movimenta todo o corpo, da cabeça aos dedos dos pés. Quem quer ter uma boa forma física encontra nesta prática uma excelente opção. Nos treinos, trabalha-se e fortalece membros superiores e inferiores, ganhando definição muscular.
2- Desenvolve a capacidade cardiovascular e a respiração
O coração é um músculo e, como tal, precisa ser exercitado para manter o seu pleno funcionamento, prevenindo problemas. A prática do Karate garante isso, pois proporciona o bombeamento eficiente do sangue e o transporte do oxigênio para todo o corpo. Também há o desenvolvimento da parte respiratória, uma vez que ela é um ponto muito importante do treino do Karate, inclusive com exercícios voltados para a respiração correta. Tudo isso ajuda o praticante a ter mais energia e disposição, pois o organismo funciona melhor.


3- Aumenta a coordenação motora e os reflexos
O treino constante do Karate visa a execução dos movimentos de maneira eficiente e precisa. Cada treino dos katas leva a uma melhor coordenação, ao ponto de poder fazê-los até de olhos fechados. Além disso, há os treinos com parceiros para melhorar os reflexos e a aplicação adequada do que foi aprendido, de acordo com a situação.


4- Melhora a concentração
Além de movimento, o Karate é observação e raciocínio. É preciso estar atento aos detalhes durante o treino, como as orientações, os exemplos dos instrutores e a própria execução das técnicas.  É preciso capacidade de refletir e interpretar o que se está a aprender.  Por isso, o Karate é um exercício de foco e concentração.
5- Ajuda a corrigir a postura
Uma parte importante dos treinos para os karatecas, é saberem movimentar-se de forma adequada, com uma postura correcta, sem ficar cabisbaixo, curvado.  Com o tempo, ao se aperfeiçoar no dojo, a melhoria na postura fica cada vez mais visível
6- Ajuda a melhorar a autoestima e controle emocional
No inicio de todos os treinos, é realizada uma meditação como preparação para o que será praticado, ficando, assim, fora do dojo todas as questões que não sejam pertinentes. Isso, além do treino em si, ajuda a relaxar, extravasar os problemas e ganhar tranquilidade. Outro ponto é que à medida que se treina vai-se aprendendo mais sobre nós mesmo e o nosso potencial, consequentemente adota uma postura confiante e assertiva para superar as dificuldades dentro e fora do dojo.

7- É defesa pessoal
Quando o Karate foi criado pelos habitantes das ilhas de Okinawa, atualmente parte do Japão, a questão era de vida ou morte. Não podiam andar armados e contavam apenas com a sua habilidade para sobreviver a ataques de bandidos e soldados. Para o karate ter chegado até aos dias de hoje, é óbvio que as técnicas desenvolvidas nessa arte cumpriram o seu objetivo de preservar a integridade física dos praticantes. Atualmente as ameaças são outras, mas saber  defender-nos ainda é fundamental.

8- Possui uma filosofia rica, com base no respeito e disciplina
Karate não é um mero desporto. É um caminho para a vida, uma procura constante do indivíduo ser melhor para si mesmo e para a comunidade. Esses valores são ensinados dentro do dojo para que sejam aplicados também fora dele. Aprende-se a importância de respeitar os outros e procurar o exemplo dos mais velhos. A filosofia desta arte marcial tem fundamentos no budô, a versão moderna do código dos samurais, com valores como pontualidade, justiça, coragem, compaixão, cortesia, sinceridade, honra e lealdade.


9- Desenvolve conceitos interpessoais e de liderança
 Um verdadeiro dojo acaba por ser uma segunda casa onde se  lida com diferentes pessoas. O karateca mais graduado, é como um irmão mais velho, com a missão de ensinar os mais novos. Com isso, aprende-se formas de comandar, a ensinar pelo exemplo e também a psicologia para orientar alunos com potenciais e dificuldades distintas.

10- Ensina a importância da persistência para alcançar objectivos
Não há um modo fácil de aprender Karate. Cada treino é mais um passo e as técnicas são dominadas pela repetição. Mas cada evolução, cada novo kata aprendido, cada desafio superado traz o sentimento da satisfação, de querer ir mais longe. Ser um karateca é cultivar o espírito de guerreiro que ajuda a vencer a vida. 
No Karate há regras de competição que proíbem arremessos perigosos e ataques ás partes sensíveis do corpo que tornam possíveis os combates  entre  atletas, "kumite".

Velocidade extremamente veloz, uma grande variedade de técnicas e um timing de fracções de segundo são a essência desta arte marcial.

Os torneios dos kata, são realizados ao mais alto nível de perfeição.
O karate é altamente dinâmico e faz um uso equilibrado de muitos músculos. Isso significa que exercita  todo o corpo, desenvolvendo coordenação e agilidade.

Por tudo isto, o Karate é para todos, independentemente da idade, dos medos e desafios que surjam. Os momentos de sucesso, fazem-nos acreditar no impossível, que diariamente tentamos ultrapassar.
" A vida é, cada vez mais, um enorme desafio pela qual vale a pena lutar"

quarta-feira, 27 de junho de 2018

ETIQUETA NO DOJO – REIGI SAHO




ETIQUETA NO DOJO – REIGI SAHO

Reigi Saho (礼儀作法) normalmente traduzido como "forma de conduta", ou "etiqueta". Trata-se da forma do comportamento dentro de um dojo, o que muitas vezes parece estranho aos ocidentais, pois os orientais possuem grande disciplina na forma de realizar cada mínimo gesto do seu dia-a-dia. Dentro de um dojo de artes marciais não é diferente, desde a forma de se entrar até a forma de se comportar dentro desse espaço, o praticante é orientado pelo sensei e/ou seu senpai, são ensinados sobre os gestos, os cumprimentos, a hierarquia, pois a etiqueta e a boa educação fazem parte do que é ser um bom praticante de artes marciais..
Ao entrar pela primeira vez num dojo, seja karate, judô, aikido, kendo etc. O praticante rapidamente percebe que praticamente tudo é falado em nihongo (língua japonesa), o que muitas vezes torna a prática ainda mais desafiadora, pois além de ter de se esforçar para aprender as técnicas marciais os praticantes devem também saber algumas palavras em japonês.  Devem aprender a pronúncia e o momento certo em que devem ser pronunciadas, nesse ponto tanto o sensei quanto os senpai ajudam os kouhai a compreenderem cada uma dessas palavras, contribuindo para o seu crescimento e aprendizagem.
Os cumprimentos
Existem alguns cumprimentos que rotineiramente são prenunciados dentro de um dojo, que são:

Sensei ni rei - cumprimento ao sensei.

Shomen ni rei - cumprimento a frente (kamiza) onde se localiza o kamidana, santuário de origem xintoísta em reverência/agradecimento aos criadores da arte marcial.

Senpai ni rei - cumprimento ao aluno mais graduado que, na falta do sensei assume a responsabilidade de ministrar a aula.

Otagai ni rei - cumprimento mútuo, onde todos se saúdam.
 
Ritsu rei - cumprimento em pé, geralmente executado na base musubi-dachi (pés unidos pelos calcanhares, com as pontas afastadas em forma de "V")

Zarei - cumprimento em seiza (sentado de joelhos).


O papel do sensei
Literalmente aquele que viveu antes. Trata-se da pessoa que durante a sua vida acumulou mais conhecimento na sua área de domínio tornando-o um sensei. No Japão vemos essa palavra sendo direcionada a professores, médicos e doutores. Dentro de um dojo, o sensei é a figura máxima dentro da hierarquia marcial, ele é o responsável por transmitir os conhecimentos adquiridos em anos de prática as novas gerações de praticantes.
O papel do senpai

Literalmente significa companheiro que veio na frente.
Os Senpai são os alunos mais velhos que estão no dojo á mais tempo, são ou pelo menos devem ser o braço direito do sensei, ajudando-o na organização dojo, na orientação dos alunos mais novos (kouhai) e na manutenção das tradições ensinadas.


O papel do kouhai

Significa companheiro que veio depois.
Os kouhai são os alunos mais novos que entram no dojo, os principiantes. Cabe a eles o respeito por quem lhe ensina a arte marcial, a dedicação, o esforço em aprender as técnicas e a filosofia da arte marcial a qual decidiu seguir.
Por isso entramos num ponto crucial, que é a relação entre senpai kouhai. Dentro de um dojo deve haver harmonia no convívio entre essas duas classes de alunos, um deve contribuir para o crescimento do outro.